quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Carta de Bakunin à Talandier sobre Nechayev (1870)

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Este 24 de Julho de 1870, Neufchâtel, de volta à Locarno.

Querido amigo:

Acabo de saber que Nechayev chegou à sua casa e lhe deu imediatamente os endereços dos nossos amigos Mroczkowski e sua esposa. Deduzo que as duas cartas em que Ogarev e eu tínhamos avisado e pedido para que ele fosse rejeitado chegaram muito tarde, e sem qualquer exagero, considero o resultado desse atraso uma grande desgraça. Pode parecer estranho que lhe aconselhemos que rejeite um homem, ao qual demos credenciais para você escritas com palavras muito calorosas. Mas essas credenciais são do mês de maio, e desde então descobrimos e tivemos de nos convencer da existência de coisas tão sérias que devemos romper todas as nossas relações com Nechayev, e com o risco de passar os seus olhos como homens inconsequentes, pensamos ser um dever sagrado alertá-lo e prepará-lo contra ele.

Vou agora tenta explicar em poucas palavras as razões desta mudança.

Segue sendo verdadeiro que Nechayev é o homem mais cruelmente perseguido pelo governo russo, e que este cobriu todo o continente europeu com inúmeros espiões para encontrá-lo em qualquer país pedindo sua extradição tanto na Alemanha como na Suíça. Isso o faz sagrado para nós. Também é verdade que Nechayev é um dos homens mais ativos e enérgicos que encontrei. Quando se trata de servir o que chama a causa, não tem misericórdia, não hesita e não se detém com nada, e se monstra tão cruel para si mesmo como para os demais. Essa é a principal qualidade que me atraiu e que me fez buscar por muito tempo sua aliança. Alguns afirmam que ele é simplesmente um vigarista francamente - é uma mentira - é uma fanático, mas ao mesmo tempo um fanático muito perigoso cuja aliança só poderia ser funesta para todos.

Agora vem o porquê desta carta.

Ele primeiramente fazia parte de um comitê secreto que realmente existiu na Rússia.  Este Comitê já não existe mais. Todos seus componentes foram detidos. Nechayev está sozinho, e só ele constitui hoje o que chama de Comitê. Já aniquilada a organização russa na Rússia, ele se esforçou para criar uma nova exterior. Tudo isso seria muito natural, muito legítimo, muito útil, mas a maneira como ele se comporta é detestável. Extremamente impressionado com a catástrofe que acaba de destruir a organização secreta na Rússia, ele foi gradualmente convencido de que para estabelecer uma sociedade séria e indestrutível era preciso tomar como base a política de Maquiavel e abraçar totalmente o sistema dos jesuítas: Pelo corpo a única violência, a alma a mentira.

A verdade, a confiança mútua, a solidariedade séria e severa só existem apenas entre uma dúzia de indivíduos que conformam o Sanctus Sanctorum [o lugar santíssimo] da sociedade. Todos os outros devem servir como um instrumento cego e como matéria explorável nas mãos desta dezena de homens realmente solidarizados. É permitido, inclusive se indica, enganá-los, envolvê-los, roubá-los e, se necessário, derrubá-los. São carne de conspiração. Um exemplo: Você recebeu Nechayev graças à nossa carta de recomendação, lhe deu parte de sua confiança, lhe confiou à seus amigos - entre outros ao senhor e a senhora Mroczkowski. Já está implantado no mundo de vocês. O que fará? Lhe lançará um pacote de mentiras para aumentar sua simpatia e confiança. Mas não se conformará com isso. As simpatias dos homens mornos, que só se entregam em parte à causa revolucionária, e que fora da dita causa têm ainda interesses humanos, como amos, amizade, família, vínculos sociais, estas simpatias não são a seus olhos uma vase suficiente. Em nome da causa, ele deve tomar posse de toda sua personalidade, sem que você se dê conta, e por isso mesmo, de estar você ausente, uma vez só em seu aposento, abrirá todas as gavetas, lendo sua correspondência, e quando uma carta parece interessante, isto é, comprometedora de qualquer ponto de vista que for, seja por si mesmo, seja para um de seus amigos, a roubará guardando-a com muito cuidado como um documento contra você ou de seu amigo. (Assim trabalhou com Ogarev, com Tata, e com outros amigos - e quando em assembleia geral o convencemos, se atreveu a nos dizer com cinismo: Pois sim, é nosso sistema, consideramos como inimigos, e temos o dever de enganar, de comprometer todas as pessoas que não estão completamente conosco. Ou seja, para todos aqueles que não estão convencidos da beleza deste sistema e prometeram não se aplicar como eles mesmos).

Se você apresentou-o a um amigo, seu primeiro cuidado será semear a divisão entre vocês, fofocas, intrigas, em uma palavra, você inimizá-los. Se seu amigo tem uma esposa ou uma filha, procurará seduzi-las, fazer-lhe um filho, para arrancar a moralidade oficial e lançá-la em um protesto revolucionário forçado contra a sociedade. Qualquer relacionamento pessoal, qualquer amizade, qualquer vínculo são considerados por ele como o mal, ele têm o dever de destruir, porque tudo isso constitui uma força que por estar fora da organização secreta debilita a força única da mesma. Não grite por achar exagero, tudo isso me foi amplamente desenvolvido e provado. Ao ver-se desmascarado, esse pobre Nechayev é ainda é tão ingênuo, tão jovem, apesar de sua perversidade sistemática, que pensou ser possível me converter. Foi até mim e me implorou para aceitar que ele desenvolvesse esta teoria em um jornal russo que sugeriu que lançássemos. Traiu a confiança de todos nós, roubou cartas, nos comprometeu terrivelmente, em uma palavra, se portou como um miserável. Sua única desculpa é seu fanatismo. É um ambicioso terrível sem saber, porque terminou por identificar do toda a causa da Revolução com sua própria pessoa. Mas não é um egoísta no sentido banal da palavra, porque ele se arrisca a horrores, e leva uma vida de martírio, privações e de trabalho incríveis. É um fanático e fanatismo impede-o de ser um jesuíta perfeito. Às vezes, isso lhe faz parecer um idiota. A maioria de suas mentiras são rudes. Joga ao jesuitismo como outros jogam a Revolução. Apesar dessa ingenuidade relativa, é muito perigoso, porque comete atos diários, violações de confiança, traições que torna muito difícil de resguardar-se, por suspeitar a duras penas a possibilidade das mesmas.

No entanto, Nechayev é uma força, porque é uma imensa energia. É com uma grande tristeza que me separei dele, porque o serviço de nossa causa requer muita energia e que poucas vezes a encontramos desenvolvida até esse ponto. Mas depois de esgotar todos os meios para me convencer, tive que me separar, e uma vez separados, eu tive que lhe combater amplamente. Seu último projeto foi nada mais, nada menos formar uma gangue de ladrões e bandidos, na Suíça, naturalmente com o objetivo de estabelecer um capital revolucionário. Lhe salvei forçando-o a deixar a Suíça porque era certo ser descoberto, ele e sua gangue, em poucas semanas, e teria se perdido e todos nós estaríamos perdidos com ele.

Seu companheiro e camarada Serebrenikov é realmente um bandido, um mentiroso descarado, sem desculpa, sem a santidade do fanatismo. fui testemunha de inúmeros papeis e cartas que ele roubou.

E tais são as pessoas que Mroczkowski, embora ele tenha sido avisado por Jukowski, estimou dever apresentar a Dupont e Bradlaugh. O mal está feito, há que repará-lo sem barulho, sem escândalo dentro do possível.

1) Em nome da paz interior, da tranquilidade da família e da consideração pessoal, lhe suplico que feche a porta de sua casa. Faça-o sem explicação, corte-o sem mais. Por muitas razões, não desejamos que saibam por enquanto nós estamos travando contra eles uma guerra em todos os níveis. Eles devem imaginar que as advertências contra eles vieram do campo de nossos adversários; o que por outro lado estará perfeitamente de acordo com a verdade, porque eu sei que se escreveu com muita energia contra eles no Conselho Geral em Londres. Não se deixe pois exposto até concordar com eles. Eles nos roubaram documentos, que temos primeiro que recuperar.

2) Persuada Mroczkowski de que a salvação de toda a sua família exige romper completamente com eles. Que ele prepare contra eles Marie. O sistema, a alegria deles consiste em seduzir e corromper jovens. Deste modo se domina toda a família. Me daria pena que soubessem da direção de Mroczkowski - porque seriam capazes de denunciá-lo. Não me atrevo a confessar abertamente na presença de uma testemunha que trair a polícia secreta a um membro com pouca ou apenas metade do tempo, é um dos meios cuja utilização como muito legítimo e útil às vezes. Aproveitando os segredos de uma pessoa em uma família de tê-lo em suas mãos, é seu principal meio.

Me assusta tanto que eles saibam o endereço de Mroczkowski que lhes aconselho, peço-lhes para mudar a sua habitação, para que eles não possam descobrir lhes. Se depois disso Mroczkowski, confiando como um tolo em seu próprio julgamento, continuar suas relações com estes senhores, cairá sobre ele as consequências fatais, inevitáveis de tal cegueira vão.

3) É preciso que você e Mroczkowski avisem a todos os amigos a quem possam ter apresentado a esses senhores para que fiquem de sobreaviso e não deem nem confiança, nem assistência.

Nechayev, mais obstinado do que nunca se perde fatalmente. O outro já está perdida. Nossos amigos não devem participar da ruína vergonhosa de ambos.

Tudo isso é muito triste e muito humilhante para nós que o tínhamos o recomendado, caro amigo, mas a verdade é ainda a melhor solução e o melhor remédio contra toda as culpas.

Responda-me à Locarno: Suíça - Cantão Tesin - Locarno - Signora Teresa Pedrazzini - per la signora Antonia.

[Na margem: De seu M. B.]

NOTAS:
1) BARRUÉ, Jean. Bakunin et Netchayef. Paris, 1971, pp.62, 63, e também CONFINO, Michel. Violence dans la violence (le débat Bakounine-Necaev). Paris, 1973, pp.100-102, [Trad. adaptado de dois livros].
2) observações datadas traduzido do russo, enquanto se aguarda o texto completo em russo.
3) BAKUNIN, Mikhail. Œuvres Complètes V, Paris, 1977, pp. 222, 225, 230, 236, 237, 241, 243.

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* In.: Fondation Besnard. Carta de Bakunin a Talandier sobre Nechaev. (ww.fondation-besnard.org)