segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Reação na Alemanha (1842)

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OS ADVERSÁRIOS DA LIBERDADE
Liberdade, realização da liberdade: quem pode negar que estas palavras estão agora à cabeça da ordem do dia da história? Amigos e inimigos reconhecem-no apesar de tudo, e ninguém ousa declarar-se abertamente e audaciosamente adversário da liberdade. Mas falar de alguma coisa e reconhecê-la não lhe dá uma existência real, e isto, o evangelho, sabe-o bem[1]; na realidade, há infelizmente ainda uma multidão que, verdadeiramente, não acredita do mais profundo do seu coração, na liberdade. Vala a pena, no interesse desta causa, ocuparmo-nos deles. Pertencem a tipos muito diferentes: encontramos, em primeiro lugar, pessoas bem colocadas, carregadas de anos e de experiência que, na sua juventude, eram mesmo diletantes da liberdade política; um homem rico e distinto encontra, na realidade, um certo prazer requintado em falar de liberdade e de igualdade, o que o torna, além do mais, duplamente importante na sociedade. Mas como não mais podem agora gozar a vida como no tempo da sua juventude, procuram dissimular o seu enfraquecimento físico e intelectual sob o véu da “experiência” — uma palavra tanta vez enganadora —: é perder tempo falar com estas pessoas; nunca levaram a liberdade a sério, nunca a liberdade foi para eles a religião que só conduz aos maiores prazeres e à felicidade suprema pela via das mais terríveis contradições, ao preço dos mais cruéis sofrimentos e da abnegação total e sem reservas. Verdadeiramente não há algum interesse em discutir com eles, porque são velhos e, assim, apesar de tudo, morrerão brevemente. 

Mas também há infelizmente muitas pessoas jovens que partilham com as pessoas do primeira grupo as mesmas convicções, ou antes, a ausência de toda a convicção. Pertencem na maior parte, a essa aristocracia que pela sua natureza está marcada desde há muito tempo, na Alemanha, pela morte política, seja a classe burguesa e comerciante, seja a dos funcionários. Com eles não há nada a empreender, e menos ainda com as pessoas judiciosas e experimentadas da primeira categoria que têm já um pé no túmulo. Os últimos tinham ao menos uma aparência de vida, enquanto que os outros são de nascença seres inexistentes, homens mortos. Estão todos embaraçados nos seus interesses sórdidos de vaidade ou do dinheiro e unicamente preocupados com os seus quotidianos, ignoram mesmo tudo da vida e o que se passa á volta deles, a ponto que, se não tivessem ouvido falar um pouco na escola da história e da evolução das ideias, acreditariam provavelmente que o mundo nunca teria sido outro do que é agora. São naturezas mortas, sombras que não podem ser nem úteis, nem nocivas; não temos nada a temer delas, porque só o que é vivo é que pode agir e como já passou de moda ter comércio com sombras, não queremos perder o nosso tempo com eles.

Mas há ainda uma terceira categoria de adversários do princípio da Revolução: é o partido reaccionário surgido pouco depois da Restauração em toda Europa e que se chama conservadorismo em política, escola histórica na ciência do direito, e filosofia positiva nas ciências especulativas. Temos a intenção de discutir com este partido, e seria absurdo da nossa parte, ignorar a sua existência e considerá-lo como insignificante; reconhecemos ao contrário, sinceramente que é agora, em todo o lado, o partido dirigente, e, bem mais, estamos prestes a conceder-lhe que a sua força presente não é um jogo do acaso, mas que tem as suas raízes profundas na evolução do espírito moderno. Em geral, não reconheço, ao acaso, uma influência real sobre a história; a história é um desenvolvimento livre, mas também necessário, do pensamento livre, de maneira que se atribuísse, ao acaso, a preponderância actual do partido reaccionário, eu prestaria o pior serviço à profissão de fé democrática que se funda unicamente sobre a liberdade absoluta do pensamento. Isto seria tanto mais perigoso, para nós, de nos adormecer numa quietude nefasta e mentirosa, que infelizmente, até ao presente, estamos ainda muito longe de compreender a nossa situação. Perigo tanto maior que, no desconhecimento, o que não é muito frequente, da verdadeira origem da nossa força e da natureza do nosso inimigo, acabrunhados pelo triste espectáculo da vulgaridade, nós podemos perder toda a nossa coragem, ou — o que é talvez, pior — como o desespero não pode durar num ser cheio de vida, restar atormentado por um temor injustificado, infantil e estéril.

PARTIDO DEMOCRÁTICO E PARTIDO REACCIONÁRIO
Nada pode ser mais útil ao partido democrático que conhecer a sua fraqueza momentânea e a força relativa dos seus adversários. Este conhecimento fá-lo sair, primeiramente da onda de imaginação e entrar nessa realidade onde deve viver, sofrer e finalmente vencer. Torna o seu entusiasmo reflectido e modesto. Quando, por este doloroso contacto com a realidade, tiver tomado consciência da sua missão sagrada e sacerdotal; quando for atormentado pelas inumeráveis dificuldades que se levantam em toda a parte sobre o seu caminho e que não têm o seu manancial — como frequentemente o partido democrático parece julgá-lo — no obscurantismo dos seus adversários, mas antes na riqueza e na complexidade da natureza humana que resiste às teorias abstractas; logo que estas dificuldades lhe façam conhecer, e em seguida, compreender as imperfeições de toda o sua existência presente e lhe tenham mostrado que o seu inimigo não está somente fora dele, mas também e, sobretudo, nele mesmo e que, depois, deve começar a vencer este inimigo imanente; logo que tenha adquirido a convicção de que a democracia não consiste somente numa oposição aos governantes, não é uma reforma particular constitucional, política ou económica, mas que anuncia uma transformação total da estrutura actual do mundo e uma vida essencialmente nova desconhecida até agora na história; logo que tudo isto o tenha convencido que a democracia é uma religião, logo que esta concepção o tenha tornado a ele mesmo, religioso, quer dizer, não somente convencido do seu principio em pensamento e em raciocínio, mas também fiel a este princípio na vida real, até nas mais pequenas manifestações — então, e só então, o partido democrático abancará sobre o mundo uma vitória efectiva.

Reconhecemos, portanto, sinceramente que a força actual do partido reaccionário não é fato do acaso, mas é uma necessidade histórica. Não tem a sua origem na imperfeição do princípio democrático: este é, na realidade, a igualdade entre os homens realizando-se em liberdade, mas é também esta identidade do espírito, a mais profunda, a mais geral, a mais universal, numa palavra esta identidade única que se manifesta na história. Esta força do partido reaccionário é o efeito da imperfeição do partido democrático que não é ainda bem sucedido na consciência afirmativa do seu princípio e, por consequência, não existe senão como negação da realidade presente. Mas não sendo senão negação, mantém-se, primeiro, necessariamente alheio a esta plenitude da vida, de que não pode ainda compreender o desenvolvimento a partir de um princípio concebido por ele sob uma forma quase unicamente negativa. É porque, até agora, ele é apenas um partido e não ainda essa realidade viva que é o futuro e não o presente. Como os democratas formam somente um partido (e ainda, a julgar pelas manifestações exteriores da sua existência, um fraco partido), como o facto de não ser senão um partido suposto, e oposto a eles, um outro partido potente, isto só devia esclarecer os democratas sobre as suas próprias imperfeições que residem essencialmente neles.

Segundo a sua natureza e o seu princípio, o partido democrático aspira ao geral e ao universal, mas segundo a sua existência, enquanto partido, é somente qualquer coisa de particular — o negativo— opondo-se a qualquer outra coisa de particular — o positivo. Toda a importância e toda a força irresistível do negativo consistindo no aniquilamento do positivo, mas, ao mesmo tempo que o positivo, o negativo breve na sua ruína, devido à sua natureza particular, imperfeito e inadaptado à sua essência. O partido democrático não existe como tal, na plenitude da sua afirmação, mas somente como a negação do positivo: é porque deve, nesta forma imperfeita, desaparecer ao mesmo tempo que o positivo, para renascer espontaneamente sob uma forma regenerada e na plenitude viva do seu ser. Assim, o partido democrático torna-se nele mesmo e esta transformação não é somente quantitativa, não é um simples alargamento da sua existência actual imperfeita: Deus nos guarde! Porque um tal alargamento conduziria e uma humilhação universal e o termo final da história seria um nada absoluto. Esta transformação é, ao contrário, qualitativa, é uma revelação que vive e que anuncia a vida, é um novo céu e uma nova terra, um mundo jovem e magnífico, no qual todas as dissonâncias actuais se transformarão numa unidade harmoniosa.

É impossível corrigir as imperfeições do partido democrático pondo um termo ao carácter exclusivo da sua existência como partido por uma aparente conciliação com o positivo: seriam esforços vãos porque o positivo e o negativo são, uma vez por todas, incompatíveis. O negativo, pelo que se isole da sua oposição ao positivo e que se considere em si, parece ser em substância e sem vida. Esta inconsistência aparente é mesmo a censura capital que os positivos fazem aos democratas; esta censura repousa sobre um mal-entendido, porque o negativo não pode ser tomado isoladamente — não seria absolutamente nada! — mas somente na sua oposição ao positivo; todo o seu ser, o seu conteúdo, a sua vitalidade tendem para a destruição do positivo. “A propaganda revolucionária”, diz o Pentarque[2], “é pela sua natureza íntima a negação das instituições existentes do Estado, porque o seu carácter mais autêntico não lhe pode determinar outro programa que a destruição de tudo o que existe”. Mas, então, é possível que o negativo, que toda a vida não tem por missão senão destruir, possa aparentemente coexistir com o que a sua natureza íntima o obriga a destruir? Só podem pensá-lo as pessoas sem chama e sem energia que não fazem uma ideia séria do positivo e do negativo.

O PARTIDO DEMOCRÁTICO PERANTE OS REACCIONÁRIOS PUROS
No seio do partido reaccionário podem-se distinguir actualmente dois grupos principais; num figuram os reaccionários puros e consequentes, no outro os inconsequentes e conciliadores. Os primeiros concebem a oposição em toda sua pureza; sabem bem que não se pode mais conciliar o positivo e o negativo, como a água com o fogo; não vendo no negativo o lado afirmativo da sua natureza, não podem acreditá-lo e deduzem correctamente que o positivo não se pode manter senão pelo esmagamento total do negativo. Ao mesmo tempo, não dão conta que o positivo não é o mesmo positivo defendido por eles senão na medida em que o negativo se opõe ainda a ele; não vêem que, por consequência, se o positivo obtivesse uma vitória total sobre o negativo, seria, daqui para o futuro, fora da oposição, não seria mais o positivo, mas antes o fim do negativo: é preciso perdoar-se-lhes esta incompreensão, porque a cegueira é o carácter essencial de todo o positivo, enquanto que o discernimento é próprio só do negativo. Na nossa triste época sem consciência, numerosos são aqueles que pela covardia tentam esconder a eles mesmos as estritas consequências dos seus próprios princípios e esperam, assim, escapar ao risco de serem alterados no edifício artificial e frágil das suas pretensas convicções. Também é necessário dizer um muito obrigado a estes senhores, aos mais reaccionários. São sinceros, honestos e querem ser homens inteiros. Não se pode falar muito com eles, porque nunca se querem prestar a uma conversa razoável e, agora que o negativo divulgou, por toda a parte, o seu fermento de decomposição, é-lhes bem difícil, senão impossível, manterem-se no puro positivo: a tal ponto que lhes é necessário separarem-se da sua própria razão; é de ter medo deles mesmo e temer o menor ensaio de demonstração das suas convicções, o que ocasionará, com certeza, a sua refutação. Têm perfeita consciência disto: também substituem a palavra pela injúria...  Não são homens menos honestos e inteiros, ou, mais exactamente, querem ser homens honestos e inteiros. Têm como nós o ódio a toda a meia-medida, porque sabem que só um homem inteiro pode ser bom e que as meias-medidas são fonte envenenada de todo o mal.

Estes reaccionários fanáticos acusam-nos de heresia, e, se fosse possível, fariam surgir do arsenal da história a força oculta da Inquisição para a utilizar contra nós; eles negam-nos todo o sentimento bom ou humano e vêem em nós anticristos endurecidos que é permitido combater por todos os meios. Pagamos-lhes na mesma moeda? Não, seria indigno para nós e a grande causa que defendemos. O grande princípio ao serviço do qual nos pusémos dá-nos, entre outras vantagens, o bom privilégio de ser justos e imparciais sem para isso causar dano à nossa causa. Tudo o que repouse sobre um ponto de vista irredutível não pode utilizar como arma a verdade, porque a verdade está em contradição com todo o ponto de vista irredutível. Tudo o que é irredutível é forçosamente nas suas declarações parcial e fanático, porque não pode afirmar-se senão pela supressão brutal de todos os outros pontos de vista irredutíveis que lhe são opostos e que são justificados tanto como ele. Um ponto de vista irredutível, pelo único facto de existir, supõe que existem outros que deva, em razão da sua natureza particular, eliminar para se manter. Esta contradição é a maldição que pesa sobre ele, uma maldição que trás em si e que muda em ódio a expressão de todos os bons sentimentos inatos em todo o homem considerado como tal.

Somos, de certo modo, infinitamente mais felizes; certamente, como partido, opomo-nos aos positivistas, combatemo-los, e esta luta acorda em todos nós as más paixões; o facto de pertencermos, nós mesmos, a um partido torna-nos também frequentemente parciais e injustos. Mas não somos somente este partido negativo oposto ao positivo; a nossa fonte de vida, é o principio universal da liberdade absoluta, um principio que oculta nele tudo o que tem de bom no positivo e que está por cima do positivo, como também por cima de nós, considerados como partido. Enquanto partido fazemos somente política, mas não encontramos a nossa justificação senão no nosso princípio, senão a nossa causa não seria melhor que aquela do positivo, e é-nos necessário, para a nossa própria conservação, ficar fiel ao nosso princípio como inimigos da religião cristã — é só conosco que está dizer, elevarmo-nos continuamente desta existência estreita e somente política até à religião do nosso princípio universal e aberto sobre a vida. Devemos agir não só politicamente, mas também na nossa política religiosamente, o que significa ter a religião da liberdade de que a única expressão autêntica é a justiça e o amor. Sim, é conosco — tratam-nos como inimigos da religião cristã — é só conosco que está reservada esta tarefa de que fazemos dever supremo: praticar efectivamente o amor mesmo nos combates mais obstinados, este amor que é o mais alto poder do Cristo e o princípio único do verdadeiro cristianismo.

Procuramos ser justos mesmo perante os nossos inimigos, e reconhecemos voluntariamente que eles se esforçam de querer realmente o bem, e mais, que a sua natureza os tinha destinado para o bem e para uma vida animada e que só um inconcebível golpe do destino os desviou da sua verdadeira vocação. Não falamos daqueles que só se juntaram ao seu partido para deixar o campo livre às suas más paixões: os tartufos, há infelizmente muitos em todos os partidos! Não falamos senão dos defensores sinceros do positivismo consequente, que se esforça por chegar ao bem sem ter a vontade de o realizar, e aí reside o seu grande infortúnio e a sua consciência é por isso dilacerada. Não vêem no principio da liberdade mais que uma fria e vulgar abstracção, na qual a vulgaridade e a secura de vários defensores deste princípio colaboraram activamente, uma abstracção vazia de toda a vida, de toda a beleza e de toda a santidade. Não compreendem que não se deve confundir este princípio com a sua forma actual, medíocre e totalmente negativa, e que não pode vencer e realizar-se se não for a viva afirmação de si mesmo suprimindo o negativo como também o positivo. A sua opinião, dividida ainda infelizmente por muitos dos aderentes do partido negativo, é que o negativo ensaia de se propapagar enquanto tal, e pensam, exactamente como nós que a difusão do negativo faria soçobrar na vulgaridade toda a sociedade intelectual. Ao mesmo tempo, os seus sentimentos espontâneos fazem-nos aspirar de pleno direito à plenitude de uma vida apaixonada e, não encontrando no negativo mais que a humilhação desta vida, retornam ao passado, ao passado tal como existia antes que surgisse a oposição entre o negativo e o positivo. Têm razão, na medida, em que esse passado era um todo animado de vida própria apresentando-se, como tal, bem mais vivo e mais rico que o presente dilacerado pelas suas contradições. Mas cometem um grande erro quando pensam poder ressuscitar esse passado tão vivo; esquecem que a plenitude do passado só lhes pode surgir sob a forma de uma imagem desunida e quebrada no espelho das contradições actuais que fatalmente engendraram, e que este passado, pertencendo ao positivo, não é mais que um cadáver sem alma abandonado as leis mecânicas e químicas da reflexão. Adeptos do um positivismo cego, não compreendem isto, se bem que os seres vivos, em razão da sua própria natureza, ressintam perfeitamente esta falta de vida; e como eles não sabem que, pelo só facto de serem positivos suportavam deles o negativo, rejeitam para o negativo toda  responsabilidade desta falta de vida; o seu impulso para a vida e a verdade, incapaz de se satisfazer, mudou em ódio e fazem pesei o peso deste fracasso sobre o negativo. Tal é necessariamente, em todo o positivista consequente, o desenrolar interno dos seus sentimentos: isto porque a meu ver são verdadeiramente de lastimar, tendo os seus esforços uma origem quase sempre honesta.

O PARTIDO DEMOCRÁTICO PERANTE OS REACCIONÁRIOS CONCILIADORES
Os positivistas conciliadores têm uma outra posição: distinguem-se dos positivistas consequentes de duas maneiras: mais corrompidos que estes últimos pela falsa visão que têm da nossa época, não somente rejeitam pura e simplesmente o negativo como um mal absoluto, mas acordam-lhe mesmo uma justificação relativa e momentânea; e por outra parte, não possuem a mesma pureza cheia de energia, esta pureza à qual aspiram, ao menos, os positivistas consequentes e intransigentes e que assinalamos como o indício de uma natureza inteira, rica e honesta. Podemos definir o ponto de vista dos conciliadores como o da desonestidade no domínio da teoria; digo bem: da teoria, porque prefiro evitar toda a acusação contra os actos ou pessoas e porque não acredito que, na evolução dos espíritos, uma má vontade pessoal possa intervir para o entravar; contudo, é necessário reconhecer que a desonestidade teórica, em razão da sua própria natureza, leva necessariamente quase sempre à desonestidade prática.

Os positivistas conciliadores têm mais inteligência e penetração que os consequentes; são os inteligentes e os teóricos por excelência e, nesta medida, os principais representantes da época actual. Poderíamos aplicar-lhes o que, no começo da revolução de Julho, dizia um jornal francês o “Juste Milieu”. “O lado esquerdo diz: dois vezes dois, fazem quatro; o lado direito: dois vezes dois, fazem seis... e o justo centro diz: dois vezes dois, fazem cinco.” Mas achariam isto ruim! Vamos também tentar estudar muito seriamente a sua natureza confusa e difícil e com o mais profundo respeito pela sua sabedoria. É muito mais penoso dar razão aos conciliadores que aos consequentes. Estes últimos manifestam nos seus actos a força das suas convicções, sabem o que querem e falam claramente, e odeiam, tal como nós, toda a indecisão, toda a obscuridade porque as suas naturezas enérgicas na acção não podem respirar livremente senão no ar puro e luminoso. Mas com os conciliadores, é outro negócio! São indivíduos maliciosos, oh! são inteligentes e prudentes! Nunca permitem na prática à paixão da verdade destruir o edifício artificial das suas teorias; são muito experimentados, muito inteligentes para dar ouvidos à voz imperativa da simples consciência prática. Seguros dos seus pontos de vista, lançam sobre ela olhares cheios de distinção, e quando dizemos que só o que é simples é verdadeiro e real, porque só ele pode jogar um papel criador, eles pretendem, ao contrário, que só o complexo é verdadeiro: tiveram, na realidade as maiores dificuldades em o remendar e é o único sinal que permite distingui-los, a eles, os indivíduos inteligentes, da plebe imbecil e inculta (e é bem difícil vencer estes indivíduos porque, precisamente, sabem tudo!). Outras razões da sua atitude: sendo hábeis políticos, resistem a uma imperdoável fraqueza de serem tomados de imprevisto por qualquer acontecimento; enfim, ajudados pela reflexão, deslizaram em todos os recantos do mundo da natureza e do espírito e, depois desta longa e penosa viagem intelectual, adquiriram a convicção de que não vale a pena manter contactos ardentes com o mundo real. Com estes indivíduos é difícil tirar alguma coisa a claro, porque, assim como as constituições alemãs, tomam com a mão direita o que dão com a esquerda; nunca respondem com um sim, ou um não, dizem: “Numa certa medida vocês têm razão, mas contudo ...”, e quando não têm argumentos dizem então: “Sim, é uma questão delicada."

E, contudo, desejamos experimentar entrar em relações com o partido dos conciliadores que, apesar da inconsciência da sua doutrina e incapacidade de jogar um papel de direcção, é actualmente um partido forte, mesmo o mais forte, se tivermos em conta, bem entendido, o número e não as ideias. A sua existência é um sinal do tempo, e um dos mais importantes: também não é permitido ignorar este partido ou passá-lo sob silêncio.

DISCUSSÃO DA NATUREZA LÓGICA DA CONTRADIÇÃO
Toda a sabedoria dos conciliadores consiste em pretender que duas tendências opostas, pelo facto mesmo da sua posição, são exclusivas e, por consequência, falsas, e se os dois termos da contradição, tomados no abstracto, são falsos, é necessário, portanto, que a verdade esteja entre os dois, á necessário conciliar os contrários para chegar à verdade. À primeira vista, este raciocínio parece irrefutável; nós mesmos admitimos o carácter exclusivo do negativo enquanto ele se opuser ao positivo e que nesta oposição relacione tudo consigo. Não resultará daqui que se realize e se complete essencialmente no positivo? E os conciliadores não têm razão de querer conciliar o positivo e o negativo? De acordo, se esta conciliação for possível: mas será verdadeiramente possível? A única razão de ser do negativo não é a destruição do positivo? Logo que os conciliadores fundam o seu ponto de vista sobre a natureza da contradição, quer dizer, sobre o facto que duas exclusividades opostas se supõem, enquanto tais, adversários, é-lhes necessário então permitir e aceitar que esta natureza toma toda a sua extensão; é-lhes necessário também, em razão das consequências que isto arrasta para eles, ficar fiéis ao seu ponto de vista, visto que a face da contradição que lhes é favorável é inseparável daquela que lhes é desfavorável. Ora, o que é desfavorável para eles é que a existência de um termo da contradição supõe a existência do outro: e isto não é qualquer coisa de positivo, mas bem de negativo e de destruição, É necessário chamar a atenção destes senhores sobre a lógica de Hegel onde ele faz um estudo tão notável sobre a categoria da contradição.

A contradição e o seu desenvolvimento imamente formam um dos nós principais de todo o sistema hegeliano, e como esta categoria é a categoria principal, a característica principal da nossa época, Hegel é sem réplica o maior filósofo do nosso tempo, o mais alto cume da nossa cultura moderna considerada unicamente do ponto de vista teórico. E precisamente, porque ele é este cume, porque compreendeu esta categoria e, por consequência a analisou, precisamente ele está na origem de uma necessária auto-decomposição da cultura moderna. Certamente, no princípio, era ainda prisioneiro da teoria, mas porque ele é este cume, evadiu-se, está por cima dela e postula um novo mundo prático; um mundo que não se realizará, em caso algum, pela aplicação formal e a extensão de teorias feitas, mas somente por uma acção espontânea do espírito prático autónomo. A contradição é a essência a mais íntima, não somente de toda a teoria determinada ou particular, mas ainda da teoria em geral; e assim, o momento em que a teoria é compreendida é também, ao mesmo tempo, quando o seu papel acabou. Devido a este contributo a teoria transforma-se num mundo novo prático e espontâneo, na presença real da liberdade. Mas não é aqui o lugar para desenvolver longamente esta questão, e queremos ainda, mais uma vez, debruçarmo-nos sobre a discussão da natureza lógica da contradição.

A própria contradição, enquanto tal, inclui os dois termos exclusivos num e no outro, é total, absoluta, verdadeira; não se lhe pode censurar esta natureza exclusiva à qual está necessariamente ligado um carácter superficial e estreito, porque ela não é somente o negativo, mas é também o positivo e, englobando-o inteiramente, é a plenitude total, absoluta, não deixando nada fora dela. E isto autoriza os conciliadores a exigir que não se retenha abstractamente só um dos dois termos em exclusivo, mas que, respeitando o laço necessário e indissolúvel que os une, se apreendam na sua totalidade: “Só a contradição á verdadeira”, dizem eles: “cada um dos termos opostos, tomados em si, é exclusivo e, portanto, falso; resulta que devemos compreender a contradição na sua totalidade para conhecermos a verdade”. Mas é precisamente aqui que começa a dificuldade: a contradição é bem a verdade, mas não existe como tal, ela não é como a totalidade, é somente uma totalidade em si e escondida, e a sua existência nasce precisamente da oposição e da divisão dos seus dois termos: o positivo e o negativo. A contradição, enquanto que verdade total, é a união indissolúvel da sua simplicidade e da sua própria divisão num princípio único. É essa a sua natureza em si, a sua natureza escondida que, por consequência, o espírito não pode imediatamente apreender, e precisamente porque esta união está escondida, a contradição só existe unicamente sob a forma da divisão dos seus termos e não é mais que a adição do positivo e do negativo; ora, estes termos excluem-se um ao outro tão categoricamente que esta exclusão recíproca constitui toda a sua natureza. Mas então como compreender a contradição na sua totalidade? Restam-nos, parece, duas saídas: ou bem que arbitrariamente é preciso fazer a abstracção da divisão refugiar-se nesta totalidade da contradição, totalidade simples e precedente da divisão — mas isto á impossível, porque o que escapa à compreensão nunca pode ser compreendido pelo espírito e porque a contradição, como tal, não tem existência imediata senão como divisão dos seus termos, e sem estar não existe; ou bem que é preciso procurar conciliar os termos opostos com um cuidado maternal, e é nisto que se esforça a escola conciliadora: vamos ver se tem êxito.

CARACTERES DO POSITIVO E DO NEGATIVO: PREPONDERÂNCIA DO NEGATIVO
O positivo parece ser, primeiramente, o elemento calmo e imóvel; e mesmo é positivo unicamente porque nele não repousa nenhuma causa de perturbação e não há nada nele que possa ser uma negação, porque, enfim, no interior do positivo não há nenhum movimento, visto que todo o movimento é uma negação. Mas precisamente o positivo é tal que nele a ausência de movimento está estabelecida como tal, e assim, tomado em si, tem por imagem a ausência total do movimento; ora, a imagem que evoca em nós a imobilidade está indissoluvelmente ligada à do movimento, ou antes, elas não são mais que uma só e mesma imagem, e assim o positivo, repouso absoluto, só é positivo em oposição ao negativo, agitação absoluta. A situação do positivo relativamente ao negativo apresenta-se assim sob dois aspectos: de uma parte, traz consigo o repouso, e esta calma apática que o caracteriza não tem qualquer traço do negativo, em si; de outra parte, para conservar este repouso, afasta energicamente dele o negativo, como se tivesse qualquer coisa de oposto ao negativo. Mas a actividade que desenvolve para excluir o negativo é um movimento, e assim o positivo, tomado em si mesmo e precisamente por causa da sua positividade, já não é mais o positivo, mas o negativo; eliminando dele o negativo, elimina-se a ele próprio e corre para a sua própria perda.

O positivo e o negativo não são, em consequência, iguais em direitos como o pensam os conciliadores; a contradição não é um equilíbrio, mas uma preponderância do negativo. O negativo é, portanto, o factor dominante da contradição, determina a existência do positivo e encerra só em si a totalidade da contradição: é também ele o único que está autorizado, por direito, de uma maneira absoluta. Talvez me objectem não termos admitido que o negativo considerado abstractamente é tão exclusivo como o positivo e que o alargamento da sua existência actual imperfeita conduzirá a um achatamento universal? Sim! mas falei somente da existência actual do negativo, falei do negativo que, afastado do positivo, dobra-se pacificamente sobre si mesmo e, assim toma os caracteres do positivo. E como tal, é negado pelo positivo, e os positivistas consequentes, negando a existência do negativo e o seu pacífico comportamento executam ao mesmo tempo uma função lógica e sagrada... sem, aliás, saber o que fazem. Julgam negar o negativo, e ao contrário, negam o negativo unicamente na medida em que se identifica com o positivo; acordam o negativo deste repouso de bom burguês para que não está destinado e reconduzem-no à sua grande vocação: sem descanso e sem reservas, destruir tudo o que tiver uma existência positiva.

Reconheçamos que o positivo e o negativo têm direitos iguais, mas este último dobra-se sobre si próprio pacifica e egoisticamente e, assim, é infiel à sua missão. Mas o negativo não deve ser egoísta, deve-se dar com amor ao positivo para o absorver e, neste acto de destruição religioso, cheio de fé e de vida, revelar a sua natureza íntima inesgotável e cheia de futuro. O positivo é negado pelo negativo e, inversamente, o negativo pelo positivo; portanto, o que é comum a ambos e quem os domina? O facto de negar, de destruir, de absorver apaixonadamente o positivo, mesmo quando este procura com astúcia esconder-se sob os traços do negativo. O negativo encontra a sua justificação nesta negação radical —  e como tal está absolutamente justificado: é, na realidade, por ele que age o espírito prático bem presente como invisível na contradição, o espírito que, por esta tempestade de destruição, exorta ardentemente à penitência das almas pecadoras dos conciliadores e anuncia a sua vinda próxima, a sua Revolução próxima numa Igreja da Liberdade verdadeiramente democrata e aberta à humanidade universal.
Esta auto-decomposição do positivo é a única conciliação possível entre o positivo e o negativo, porque este último é ele mesmo, de maneira imanente e total, o movimento e a energia da contradição. Assim, qualquer outro modo de conciliação é arbitrário, e todos aqueles que tendem para uma conciliação demonstram somente pela mesma que não estão penetrados pelo espírito do tempo e que são estúpidos, ou sem carácter: não se é, na realidade, verdadeiramente inteligente e moral se se abandona por completo este espírito e se se é penetrado por ele. A contradição é total e verdadeira: mesmo os conciliadores o reconhecem. Sendo total é animada por uma vida intensa, e desta vida que abraça extrai precisamente a sua energia, do positivo ardente na chama pura do negativo.

ARGUMENTOS DOS CONCILIADORES E CRÍTICA DESTES ARGUMENTOS
Que fazem então os conciliadores? Concedem-nos tudo isto, reconhecem, como nós, o carácter total da contradição, com a diferença de que a despojam — ou antes, querem despojá-la — do seu movimento, da sua vitalidade e da sua alma inteiramente: esta vitalidade, na realidade, é uma força prática, incompatível com as suas alminhas impotentes, e por isso mesmo acima de tudo o que possam tentar para a sufocar. Já dissémos e demonstrámos que o positivo, tomado em si mesmo, está privado de todos os direitos: não se justifica senão na medida em que opõe a sua recusa à quietude do negativo e a toda a relação como ele, em que afasta de si o negativo categoricamente e sem reservas e mantém assim a sua actividade, na medida, enfim, em que se transforma num negativo activo. Esta actividade que consigo carrega a negação, à qual os positivistas se elevam graças à potência invencível da contradição e à sua presença invisível em todas as naturezas vivas, esta actividade que constitui a única justificação dos positivistas e o único sinal da sua vitalidade, é ela precisamente que os conciliadores querem proibir. Por uma desgraça singular e incompreensível, ou antes, em razão desta desgraça perfeitamente compreensível que nasce da sua falta de carácter e da sua importância na vida prática, não conhecem nos elementos positivos senão o que neles há de morto, de apodrecido, e dedicados à destruição recusam o que cria toda a sua vitalidade: a luta viva com o negativo, a presença da contradição. 

E vejamos o que dizem aos positivistas: “Senhores, vocês têm razão em conservar os restos apodrecidos e ressecados pela tradição. Como a vida é bela e agradável nas ruínas, neste mundo absurdo da rococó cujo ar, para os nossos espíritos anémicos, é tão saudável como o ar de um estábulo para os corpos anêmicos. No que nos diz respeito, nós ter-nos-íamos estabelecido com a maior alegria no vosso mundo, num mundo onde o Verdadeiro e o Sagrado não se avaliem à escala da razão e das decisões razoáveis da vontade humana, mas àquela da longa duração e da imobilidade, um mundo como, em consequência, é certamente a China com os seus mandarins e os seus bestonados para a Verdade absoluta. Mas, o que é preciso fazer agora, senhores? Vivemos dos tristes tempos, nossos inimigos comuns, os negativos, ganharam muito terreno. Á nossa raiva para com eles é também forte, senão mais forte que a vossa, porque eles se permitem nos seus excessos desprezar-nos. Mas tornaram-se fortes e é-nos necessário — quer queiramos, quer não — levá-los em consideração, sob pena de sermos inteiramente destruídos por eles. Não sejam, portanto, tão fanáticos, senhores, concedam-lhes um lugarzito na vossa sociedade. Que vos importa se, no vosso museu histórico, eles tomam o lugar frequentemente de ruínas, aliás muito veneráveis mas completamente arruinados? Acreditem-nos: contentíssimos da honra que assim lhes testemunhais, conduzir-se-ão na vossa respeitável sociedade com muita calma e discrição. Não são, afinal de contas, senão indivíduos jovens tornados amargos pela necessidade e a falta de uma situação isenta de cuidados: é a única razão dos seus gritos a de todo o barulho que fazem, esperançados por adquirirem uma certa importância e obterem um lugar agradável na sociedade.”

Depois voltam-se para os negativistas e dizem-lhes: “Senhores as vossas aspirações são nobres! Compreendendo o vosso entusiasmo juvenil pelos puros princípios temos por vós a maior simpatia; mas, acreditem-nos, os puros princípios são na sua pureza inaplicáveis á vida; é necessário para viver ter uma certa dose de eclectismo, o mundo não se deixa guiar segundo os vossos desejos e é preciso ceder-lhe sobre certos pontos para poder exercer sobre ele uma acção eficaz: senão a vossa situação no mundo estará completamente perdida”. Os conciliadores parecem-se com os judeus polacos que, diz-se, aquando da última guerra da Polónia, queriam prestar serviços aos dois partidos em luta, aos polacos e aos russos, e foram pendurados por um e por outro; da mesma maneira, estes infelizes atormentem-se com o seu empreendimento impossível de conciliação exterior e, em agradecimento, são desprezados pelos dois partidos. É somente deplorável que na época actual falte tanta força e energia para fazer sua a lei de Sólon![3]

“Não passam de frases!” dirão; “os conciliadores são indivíduos, na maior parte, honrosos e tendo uma formação científica há entre eles um grande número de pessoas universalmente consideradas e altamente colocadas, e vocês apresentam-os como indivíduos sem discernimento e sem carácter!” Que posso contra isso, se isso é verdade? Não me quero entregar a qualquer ataque pessoal; os sentimentos íntimos de um indivíduo são para mim uma coisa santa e inviolável, qualquer coisa de incomensurável sobre a qual nunca me permitiria fazer um julgamento; eles podem ter para o indivíduo um valor imenso, mas, na realidade, para o mundo eles existem, na medida em que se manifestam, e o mundo vê-os tal como eles se manifestam. Todo o homem é realmente o que é no mundo real, é-me impossível chamar branco ao que é preto.

Sim, responderão, as aspirações dos conciliadores parecem-nos negras, ou mais exactamente acinzentadas; na realidade, querem somente o progresso, tendem para ele e favorizam-no mais que vós mesmos, metendo-se ao trabalho com prudência e não com a presunção dos democratas que procuram fazer saltar o mundo inteiro. Mas já vimos o que é este pretendido progresso visado pelos conciliadores, já vimos que eles não querem, no fundo nada que não seja abafar o único princípio vivo da nossa época, aliás, tão miserável, o princípio criador e rico de futuro do movimento que desintegra todas as coisas. Vêem tão bem como nós que o nosso tempo é o da contradição; admitem que é uma situação difícil e cheia de tumultos, mas no lugar de a deixarem evoluir, sob o efeito da contradição levada ao seu termo, para uma realidade nova, afirmativa e orgânica, querem manter eternamente esta situação, tão miserável e tão débil na sua existência presente, através duma infinidade de reformas graduais. É isto progresso? Eles dizem aos positivos: “Conservais o que é velho, mas permiti ao mesmo tempo aos negativos desagregá-lo pouco a pouco”. E aos negativos; “Destrui o que é velho, mas não de um só golpe nem totalmente, afim que possais ter sempre qualquer obra a fazer; quer dizer, ficai cada um na vossa exclusividade, enquanto que nós os Eleitos, guardaremos para nós o usufruto da totalidade!” Miserável totalidade que somente pode satisfazer os espíritos miseráveis! Eles despojam a contradição da sua alma prática e sempre em movimento e regozijam-se de poder, em seguida, tratá-la segundo a sua fantasia. A grande contradição actual não é para eles uma força prática do tempo presente, à qual todo o ser vivo deve abandonar-se para conservar a sua vitalidade, mas um simples brinquedo teórico. Não estão penetrados pelo espírito prático do tempo e são, por esta razão, indivíduos sem moralidade; sim, sem moralidade! eles que se vangloriam da tal forma da sua moralidade! Porque fora desta igreja da humanidade livre não haveria possibilidade de haver moralidade, sem a qual não há salvação! É preciso repetir-lhes o que o autor do Apocalipse diz aos conciliadores do seu tempo[4];

“Conheço a tua conduta; não és nem trio, nem quente - não és nem uma coisa, nem outra!

Assim, já que estás tépido, nem quente nem trio, vou vomitar-te da minha boca.

Tu imaginas-te: eis-me rico, enriqueci-me e nada me falta; mas tu não o vês; és tu que és infeliz, piedoso, pobre, cego e nu.”

“Mas” dir-me-ão, “não irão cair, com a vossa separação absoluta dos extremos, neste ponto de vista abstracto desde há muito tempo superado por Shelling e Hegel? E este mesmo Hegel que tendes em tão alta consideração, não remarcou justamente que na luz pura se vê tão pouco como na obscuridade pura, e que só a união concreta dos dois torna a visão geralmente possível? E o grande mérito de Hegel não é de ter demonstrado que todo o ser vivo não vive se não possuir a sua negação não exteriormente a ele, mas nele como uma condição vital imanente, e que se fosse somente positivo e tivesse a sua negação exteriormente a ele, seria privado de movimento e de vida?”. Sei-o muito bem, senhores! Admito que, por exemplo, um organismo vivo não vive se não traz o germe da sua morte. Mas se querem citar Hegel, é necessário fazê-lo integralmente. Vereis então que o negativo não é condição vital dum determinado organismo senão durante o tempo em que aparece nesse organismo como factor mantido na sua totalidade. Vereis que chega um momento onde a acção gradual do negativo é bruscamente quebrada, transformando-se em principio independente, que este instante significa a morte deste organismo e que a filosofia de Hegel caracteriza este momento como a passagem da natureza a um mundo qualitativamente novo, ao mundo livro do espírito.

CONTRADIÇÃO SEMPRE MAIS AGUDA ENTRE NÃO-LIBERDADE E LIBERDADE 
DECOMPOSIÇÃO DAS IGREJAS E DOS ESTADOS
Os mesmos factos reproduzem-se na história; por exemplo, o princípio da liberdade teórica despertou no mundo católico do passado desde os primeiros anos da sua existência. Este princípio foi a fonte de todas as heresias tão numerosas no catolicismo. Sem este princípio, o catolicismo teria permanecido congelado; foi, portanto, ao mesmo tempo o princípio da sua vitalidade, mas somente, enquanto foi mantido na sua totalidade como um factor simples. E assim o protestantismo fez, pouco a pouco, a sua aparição; a sua origem remonta mesmo à origem do catolicismo, mas um dia a sua progressão cessou bruscamente de ser gradual e o princípio da liberdade teórica elevou-se até se tornar um princípio autónomo e independente. É somente então que a contradição aparece na sua pureza, e vós bem o sabeis, senhores, vós que vos dizeis protestantes, o que Lutero respondeu aos conciliadores do seu tempo quando lhe vieram propor os seus serviços.

Como vemos, a ideia que faço sobre a natureza da contradição presta-se a uma confirmação não somente lógica, mas também histórica. Sei que nenhuma demonstração tem efeito sobre vós, porque, sendo sem vida, vós tendes como ocupação preferida o domínio da história, e não é sem razão que vos consideraram arrumadores insensibilizados! “Não estamos ainda vencidos” talvez me respondam os conciliadores; “tudo o que dizeis sobre a contradição é verdadeiro; mas há uma coisa com que não podemos estar de acordo, é que a situação actual esteja tão má como a pretendeis. Há contradições na nossa época, mas não são tão perigosas como vós o assegurais. Vejamos, em toda a parte reina a calma, em toda a parte a agitação está sossegada, ninguém pensa na guerra e a maioria da nações e dos homens vivos actualmente empregam todas as suas forças para manter a paz; é que eles sabem que, sem a paz, não podem ser favorecidos os seus interesses materiais, que parece terem-se tornado o principal negócio da política e do mundo civilizado. Que excelentes ocasiões apareceram para fazer a guerra e para destruir o regime existente, desde a revolução de Julho até aos nossos dias! Durante estes doze anos produziram-se tais complicações que nunca se acreditou ser possível a sua solução pacífica, houve tantos momentos em que um conflito geral parecia inevitável e que as mais terríveis tempestades nos ameaçavam: e, entretanto, as dificuldades, pouco a pouco, desapareceram, tudo ficou tranquilo e a paz parece ter-se estabelecido para sempre sobre a terra”!

A paz, dizeis vós: como se se pudesse chamar paz a isto! Sustento, ao contrário, que nunca as contradições estiveram tão acentuadas como no presente; afirmo que a eterna contradição que existe desde sempre, mas que, durante a história, não fez mais que crescer e desenvolver-se esta contradição entre a liberdade e a não-liberdade, tomou o seu impulso no nosso tempo tão análogo aos períodos da decomposição do mundo pagão e atingiu o apogeu! Não leram sobre o frontão do templo da Liberdade erigido pela Revolução estas palavras misteriosas e terríveis: Liberdade, Igualdade, Fraternidade? Não sabeis e não sentis que estas palavras significam a destruição total da presente ordem política e social? Nunca ouviram dizer que Napoleão, esse pretenso vencedor dos princípios democráticos, tem, como filho digno da Revolução, propagado por toda a Europa, pela sua mão vitoriosa, os princípios igualitários? Talvez ignorais tudo sobre Kant, Fichte, Schelling e Hegel, e não sabeis verdadeiramente nada de uma filosofia que, no mundo intelectual, estabeleceu o princípio da autonomia do espírito, idêntico ao princípio igualitário da Revolução? Não compreendeis que este princípio está em contradição absoluta com todas as religiões positivas actuais, com todas as Igrejas existentes? 

”Sim”, respondeis, “mas estas contradições são justamente da história antiga; em França, a revolução foi vencida pelo sábio governo de Louis-Philippe, e foi Schelling, ele próprio, que recentemente derrubou a filosofia moderna, quando tinha sido ele um dos seus maiores fundadores. Em toda a parte, e agora em todas as esferas da vida, a contradição será superada!” Acreditais verdadeiramente nesta resolução, nesta vitória sobre o espírito revolucionário? Sois, portanto, cegos ou surdos? Não tendes olhos nem orelhas para perceber o que progride à vossa volta? Não, senhores, o espírito revolucionário não foi vencido; a sua primeira aparição abalou o mundo inteiro até aos seus fundamentos, em seguida apenas se dobrou sobre si próprio, ocultou-se somente em si para pouco depois, de novo, se anunciar como o princípio afirmativo e criador, e escava agora sob a terra como uma toupeira, segundo a expressão de Hegei! Que não trabalha inutilmente, é o que mostram todas estas ruínas que juncam o solo do edifício religioso, político e social. E falais de superação da contradição e de reconciliação! Olhai à vossa volta e dizei-me o que ficou vivo do velho mundo católico e protestante? Falais de vitória sobre o princípio negativo! Não leram nada de Strauss, de Feuerbach e de Bruno Bauer, não sabeis que as suas obras estão em todas as mãos? Não vêem que toda a literatura alemã, todos os livros, jornais e brochuras estão penetrados por este espírito negativo e que mesmo as obras dos positivistas, inconsciente e involuntariamente, o estão também. E é a isto que chamais paz e reconciliação!

Sabemos que a humanidade, em razão da sua nobre missão, não pode encontrar a sua satisfação e o seu apaziguamento senão no princípio prático universal, num princípio que com força abraça a si as mil diversas manifestações da vida espiritual. Mas onde está este princípio, senhores? Entretanto, chegamos por vezes, durante a vossa existência ordinária tão triste, a viver instantes cheios de vida e de humanidade, desses instantes em que rejeitais para longe de vós os móveis mesquinhos que animam a vossa vida quotidiana e aspirais à verdade, a tudo o que é grande e santo; respondam-me então sinceramente, a mão sobre o coração: já encontrásteis em alguma parte qualquer coisa de vivo? Já alguma vez, entre as ruínas que nos rodeiam, descobriram este mundo tão desejado onde poderíeis renascer para uma nova vida num abandono total e numa comunhão perfeita com toda a humanidade? Seria isto, por acaso, o mundo do protestantismo? Mas esse está atormentado pelas mais horríveis desordens, e em quantas seitas diferentes não está ele dividido? “Sem um grande entusiasmo geral”, diz Schelling, “só há seitas, mas não há opinião pública”. E o mundo protestante actual está em mil lugares a ser penetrado por um tal entusiasmo, porque é o mundo mais prosaico que se possa imaginar. Seria isto, por acaso, o catolicismo? Mas onde está o seu antigo esplendor? Ele, que foi o mestre do mundo, não se tornou o instrumento submisso de uma política imoral, estranha aos seus princípios? Ou talvez encontreis a vossa satisfação no Estado tal como é presentemente? Pois bem! isto seria uma bonita satisfação! O Estado consagrou-se, agora, às contradições interiores mais extremas, porque o Estado sem religião e sem princípios sólidos comuns não pode viver. Se vos quereis convencer, olhai somente para a França e Inglaterra: prefiro não falar da Alemanha! 

Olhai para vós mesmos, senhores, e digam-me sinceramente se estais contentes convosco e se vos é possível ser? Não vos pareceis todos, sem excepção, com os tristes e miseráveis fantasmas da nossa triste e miserável época? Não estais cheios de contradições? Sois homens inteiros? Acreditais verdadeiramente em alguma coisa? Sabeis o que quereis e, sobretudo, sois capazes de querer alguma coisa? O pensamento moderno, esta epidemia da nossa época, terá deixado viva uma só parte de vós, não vos penetrou até ao recôndito, paralisados e quebrados? Em verdade, senhores, é necessário que reconheçam que a nossa época é uma época miserável e que nós somos as crianças ainda mais miseráveis!

DA DESTRUIÇÃO DO VELHO MUNDO SURGIRÁ UMA ORDEM NOVA
Mas por outro lado manifestam-se à nossa volto fenómenos precursores: são o sinal de que o Espírito, esta velha toupeira[5], acabou o seu trabalho subterrâneo e irá brevemente reaparecer para fazer a sua justiça. Formam-se, por todo o lado, e sobretudo em França e na Inglaterra, associações de tipo, ao mesmo tempo, socialista e religioso, que, inteiramente à parte do mundo político actual, irão buscar a sua vitalidade em fontes novas e desconhecidas, desenvolvendo-se e propagando-se secretamente. O povo, a classe das pessoas pobres que constituem sem dúvida alguma a imensa maioria da humanidade[6], essa classe de que já se reconheceu os direitos em teoria, mas que o seu aparecimento e a sua situação de condenados, até ao presente, à miséria e à ignorância e, do mesmo modo, a uma escravidão de facto, esta classe que constitui o povo propriamente dito, toma por toda a parte uma atitude ofensiva; começa a enumerar os seus inimigos, cujas forças são inferiores às suas, e a reclamar a efectivação dos seus direitos que todos já lhe reconheceram. Todos os povos e todos os indivíduos estão plenos de um vago pressentimento, e todo o ser normalmente constituído espera ansiosamente este futuro próximo, onde serão pronunciadas as palavras libertadoras. Mesmo na Rússia, esse império imenso de estepes cobertas de neve que conhecemos tão pouco e a quem se abre talvez um grande futuro, mesmo nesta Rússia se amontoam nuvens escuras, precursoras da tempestade. Oh! a atmosfera sufoca o está cheia de tempestades!


NOTAS:
[1] Bakunine referia-se, sem dúvida, à passagem do Evangelho segundo S. Mateus “Não é dizendo-me: Senhor! Senhor! que se entra ao reino dos céus, mas é fazendo a vontade de meu Pai que está nos céus” (A Bíblia, editada pela Escola Bíblica do Jerusalém — pág. 1298).

[2] Segundo uma nota de Rainer Beer (Bakounine — “Phllosophie der Tat”, Edições Hegner, em Colónia) este sobrenome, designaria um teórico do Direito, Fréderic Julius Stahl (1820-1861), um dos criadores desta concepção cristã-conservadora que concebe ao Estado e ao Direito uma origem divina

[3] Por volta da 594 a. o. Solon promulgou em Atenas ame isi surpreendente: perda parcial ou total dos direitos políticos (atimie) dos cidadãos culpados de abstenção política em caso de agitação ou da perigo necional Por volta de 454 a. o., depois de Marathon e antes da grande Invasão de Xerxes, esta lei tinha cado em desuso e para combater os sd,,ersár]os do rearmamento de Atenas, Thérmisrode lisa o ostracismo. 

[4] As linhas que se seguem são extraídas do Apocalipse; cartas às Igreja da Ásia (Laodicée). O texto referido é reproduzido da Bíblia (Escola Bíblica de Jerusalém), pág. 623. O texto alemão de Bakunine está inteiramente conforme a tradução apresentada.

[5] Alusão e essa passagem de Haqel: - Frequentemente parece que o espirito esquece-se, perde-se; mas no interior está sempre em oposição cora ele mesmo. é progresso interior, como Hemlat diz do eepprilo de seu pai - "Bom trabalho, velha toupeira!". até ao momento em que encontre nele mesmo tanta força para levantar a crosta terrestre que o separado sol”. Marx utilizou e mesma imagem: “Logo que a revolução tenha acabado o seu trabalho subterrâneo, a Europa saltará do seu lugar e rejubilará: “Bem escavado, velha toupeira!”

[6] Comparar Proudhon (“Filosofia do Progresso”, 1853): A classe assalariada, a mais numerosa e a mais pobre, tanto mais pobre do que numerosa”.
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*In.: BAKUNINE, Miguel. A Reação na Alemanha. In: Cadernos Peninsulares, Nova Série, Ensaio 17.  Tradução: José Gabriel. Portugal: Editora Assírio & Alvin, 1976. Pgs. 105-127.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A política da Internacional (1869)

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Até agora acreditamos, diz La Montagne, que as opiniões políticas e religiosas eram independentes da qualidade de membro da Internacional; e, quanto a nós, é nesse terreno que nos situamos? 

Poder-se-ia crer, à primeira vista, que o Sr. Coullery tem razão. Isso porque, com efeito, a Internacional, ao aceitar em seu seio um novo membro, não lhe pergunta se ele é religioso ou ateu, se pertence a tal partido político ou não pertence a nenhum; pergunta-lhe simplesmente: és operário, ou, se não és, queres, sentes a necessidade e a força para abraçar francamente, completamente a causa dos operários, de identificar-te com ela, à exclusão de todas as outras causas que poderiam ser-lhe contrárias?

Sentes que os operários que produzem todas as riquezas do mundo, que são as criaturas da civilização e que conquistaram todas as liberdades burguesas, estão hoje condenadas à miséria, à ignorância e à escravidão? Compreendeste que a causa principal de todos os males que o operário sofre é a miséria, e que essa miséria, que é o destino de todos os trabalhadores no mundo, é uma consequência necessária da organização econômica atual da sociedade, e notadamente da subjugação do trabalho, isto é, do proletariado sob o jugo do capital, quer dizer, da burguesia?

Compreendeste que entre o proletariado e a burguesia existe um antagonismo que é irreconciliável, porque ele é uma consequência necessária de suas posições respectivas? Que a prosperidade da classe burguesa é incompatível com o bem-estar e a liberdade dos trabalhadores, porque essa prosperidade exclusiva não é e não pode ser fundada senão sobre a exploração e a subjugação de seu trabalho, e que, pela mesma razão, a prosperidade e a dignidade humana das massas operárias exigem absolutamente a abolição da burguesia como classe separada? Que, por consequência, a guerra entre o proletariado e a burguesia é fatal, e que não pode terminar senão pela destruição desta última.

Compreendeste que nenhum operário, por mais inteligente e enérgico que seja, é capaz de lutar sozinho contra a força tão bem organizada dos burgueses, força representada e apoiada principalmente pela organização do Estado, de todos os Estados? Que para te dar força deves associar-te, não com os burgueses, o que seria de tua parte uma estupidez ou um crime, porque todos os burgueses, como burgueses, são nossos inimigos irreconciliáveis, nem com operários infiéis, e que seriam bastante covardes para ir mendigar os sorrisos e a benevolência dos burgueses, mas com operários honestos, enérgicos, e que querem francamente o que queres?

Compreendeste que, tendo em vista a coalizão formidável de todas as classes privilegiadas, de todos os proprietários, capitalistas, e de todos os Estados no mundo, uma associação operária isolada, local ou nacional, mesmo que pertença a um dos maiores países da Europa, jamais poderá triunfar, e que, para fazer frente a essa coalizão e para obter esse triunfo, não é preciso nada menos que a união de todas as associações operárias locais e nacionais numa associação universal, faz-se necessária a grande Associação Internacional dos Trabalhadores de todos os países?

Se tu sentes, se bem compreendeste e se queres realmente tudo isso, vem para o nosso lado, quaisquer que sejam, por sinal, tuas crenças políticas e religiosas. Mas, para que possamos aceitar- te, deves prometer-nos: 1° Subordinar doravante teus interesses pessoais, mesmo aqueles de tua família, tanto quanto tuas convicções e manifestações politicas e religiosas, no interesse supremo de nossa associação: a luta do trabalho contra o capital, dos trabalhadores contra a burguesia no terreno econômico; 2° nunca transigir com os burgueses num interesse pessoal; 3° nunca buscar elevar-te individualmente, só para tua própria pessoa, acima da massa operária, o que faria de ti mesmo imediatamente um burguês, um inimigo e um explorador do proletariado; pois toda a diferença entre o burguês e o trabalhador é a seguinte: o primeiro busca seu bem sempre fora da coletividade, e o segundo não o busca e não tenciona conquistá-lo senão solidariamente com todos aqueles que trabalham e que são explorados pelo capital burguês; 4° permanecerás sempre fiel à solidariedade operária, pois a mínima traição dessa solidariedade é considerada pela Internacional como o maior crime e a maior infâmia que um operário possa cometer. Em resumo, deves aceitar francamente, plenamente nossos estatutos gerais, e assumirás o engajamento solene de conformar doravante teus atos e tua vida a eles.

Pensamos que os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria ao eliminar inicialmente do programa dessa Associação todas as questões políticas e religiosas. Sem dúvida, não lhes faltaram em absoluto nem opiniões políticas, nem opiniões antirreligiosas bem definidas; mas eles abstiveram-se de emitidas nesse programa porque seu objetivo principal era unir acima de tudo as massas operárias do mundo civilizado numa ação comum. Tiveram necessariamente de buscar uma base comum, uma série de simples princípios sobre os quais todos os operários, quaisquer que sejam, por sinal, suas aberrações políticas e religiosas, por pouco que sejam operários sérios, isto é, homens duramente explorados e sofredores, estão e devem estar de acordo.

Se eles arvorassem a bandeira de um sistema político ou antirreligioso, longe de unir os operários da Europa, eles os teriam dividido ainda mais; porque, com a ajuda da ignorância dos operários, a propaganda interesseira e, no mais elevado nível, corruptora dos padres, dos governos e de todos os partidos políticos burgueses, sem excetuar os mais vermelhos, disseminou um monte de falsas ideias nas massas operárias, e porque essas massas cegadas apaixonam-se infelizmente ainda demasiado amiúde por mentiras, que não têm outro objetivo senão fazê-las servir voluntária e estupidamente em detrimento de seus próprios interesses, aqueles das classes privilegiadas.

Por sinal, ainda existe uma diferença demasiado grande entre os graus de desenvolvimento industrial, político, intelectual e moral das massas operárias nos diferentes países para que seja possível uni-las hoje por um único e mesmo programa político e antirreligioso. Adotar tal programa como esse da Internacional, fazer dele uma condição absoluta de ingresso nessa Associação, seria querer organizar uma seita, não uma associação universal; seria matar a Internacional.

Houve ainda uma outra razão que fez eliminar inicialmente do programa da Internacional, ao menos na aparência, e apenas na aparência, toda tendência política.

Até hoje, desde o começo da história, ainda não houve política do povo, e entendemos por este termo o povão, a canalha operária que nutre o mundo com seu trabalho; só existiu a política das classes privilegiadas, essas classes que se serviram da força muscular do povo para destronar-se mutuamente, e para uma pôr-se no lugar da outra. O povo, por sua vez, nunca tomou partido por umas contra as outras senão na vaga esperança de que ao menos uma dessas revoluções políticas, das quais nenhuma pôde fazer-se sem ele, mas nenhuma se fez para ele, traria algum alívio à sua miséria e à sua escravidão seculares. Ele sempre se enganou. Mesmo a grande revolução francesa enganou-o. Ela matou a aristocracia nobiliária e pôr em seu lugar a burguesia. O povo não se chama escravo nem servo; ele é proclamado nascido livre em direito, mas de fato sua escravidão e sua miséria permanecem as mesmas.

E permanecerão sempre os mesmos enquanto as massas populares continuarem a servir de instrumento à política burguesa, chame-se essa política conservadora, liberal, progressista, radical, e mesmo que se desse as aparências mais revolucionárias do mundo. Pois toda política burguesa, quaisquer que sejam sua cor e seu nome, só pode ter, no fundo, um único objetivo: A manutenção da dominação burguesa; e a dominação burguesa é a escravidão do proletariado.

Assim, o que teve de fazer a Internacional? Teve, de início, de afastar as massas operárias de toda política burguesa; teve de eliminar de seu programa todos os programas políticos burgueses.

Mas à época de sua fundação, não houve no mundo outra política senão aquela da Igreja ou da monarquia, ou da aristocracia ou da burguesia; a última, sobretudo aquela da burguesia radical, era seguramente mais liberal e mais humana do que as outras, mas todas igualmente fundadas na exploração das massas operárias e não tendo, na realidade, outro objetivo senão disputar o monopólio dessa exploração. A Internacional teve de começar limpando o terreno, e como toda política, do ponto de vista da emancipação do trabalho, encontrava-se então maculada de elementos reacionários, ela teve inicialmente de expurgar de seu seio todos os sistemas políticos conhecidos, a fim de poder fundar sobre essas ruínas do mundo burguês a verdadeira política dos trabalhadores, a política da Associação Internacional.


II

Os fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores agiram com mais sabedoria ainda ao evitar introduzir princípios políticos e filosóficos como base dessa associação, e ao lhe dar, de início, como único fundamento apenas a luta exclusivamente econômica do trabalho contra o capital, porque eles tinham a certeza de que, a partir do momento que um operário põe o pé nesse terreno, a partir do momento que, adquirindo confiança tanto em seu direito como na força numérica, ele engaja-se com seus companheiros de trabalho numa luta solidária contra a exploração burguesa, ele será necessariamente levado, pela própria força das coisas, e pelo desenvolvimento dessa luta, a logo reconhecer todos os princípios políticos, socialistas e filosóficos da Internacional, princípios que nada mais são, com efeito, que a justa exposição de seu ponto de partida, de seu objetivo.

Expomos esses princípios em nossos últimos números. Do ponto de vista político e social, eles têm por consequência necessária a abolição das classes, consequentemente aquela da burguesia, que é a classe hoje dominante; a abolição de todos os Estados territoriais, aquela de todas as pátrias políticas, e sobre sua ruína, o estabelecimento da grande federação internacional de todos os grupos produtivos, nacionais e locais. Do ponto de vista filosófico, como eles não tendem a nada menos que à realização do ideal humano, da felicidade humana, da igualdade, da justiça e da liberdade na terra, que por isso mesmo tendem a tornar completamente inúteis todos os complementos celestes e todas as esperanças de um mundo melhor, eles terão por consequência igualmente necessária a abolição dos cultos e todos os sistemas religiosos.

Anunciai inicialmente esses dois objetivos a operários ignorantes, esmagados pelo trabalho de cada dia e desmoralizados, envenenados, por assim dizer, voluntariamente pelas doutrinas perversas que os governos, de concerto com todas as castas privilegiadas, padres, nobreza, burguesia, distribuem-lhes a mancheias, e vós os apavorareis; eles vos rejeitarão, talvez, sem suspeitar de que todas essas ideias nada mais são que a expressão mais fiel de seus próprios interesses, que esses objetivos trazem em si a realização de seus mais caros desejos; e que, ao contrário, os preconceitos religiosos e políticos em nome dos quais eles talvez os rejeitarão, são a causa direta do prolongamento de sua escravidão e de sua miséria. É preciso distinguir entre os preconceitos das massas populares e aqueles da classe privilegiada.

Os preconceitos das massas, como acabamos de dizê-lo, são fundados apenas em sua ignorância, e são totalmente contrários a seus interesses, enquanto os preconceitos da burguesia são precisamente fundados nos interesses dessa classe, e se se sustentam, contra a ação dissolvente da própria ciência burguesa, graças ao egoísmo coletivo dos burgueses. O povo quer, mas não sabe; a burguesia sabe, mas não quer. Qual dos dois é o incurável?

A burguesia, sem nenhuma dúvida. Regra geral: só se pode converter aqueles que sentem a necessidade de sê-lo, aqueles que já trazem em seus instintos ou nas misérias de sua posição, seja exterior, seja interior, tudo o que quiserdes dar-lhes; jamais aqueles que não sentem a necessidade de nenhuma mudança, até mesmo aqueles que, conquanto desejando sair de uma posição com a qual estão descontentes, são levados pela natureza de seu hábitos morais, intelectuais e sociais, a buscar num mundo que não é aquele de vossas ideias.

Convertei, rogo-vos, ao socialismo um nobre que cobiça a riqueza, um burguês que gostaria de tornar-se nobre, ou mesmo um operário que só quisesse, com todas as forças de sua alma, tornar-se um burguês! Convertei ainda um aristocrata real ou imaginário da inteligência, um douto, um meio douto, um quarto, um décimo, uma centésima parte de douto que, cheios de ostentação científica e amiúde porque apenas tiveram a felicidade de ter compreendido bem ou mal alguns livros, são cheios de desprezo arrogante pelas massas iletradas, e imaginam que são chamados a formar entre si uma nova casta dominante, isto é, exploradora.

Nenhum raciocínio, nenhuma propaganda jamais estarão em condições de converter esses infelizes. Para convencê-los, só há um meio: é o fato, é a destruição da própria possibilidade das situações privilegiadas, de toda dominação e de toda exploração; é a revolução social que, varrendo tudo o que constitui a desigualdade no mundo, o moralizará, forçando-os a buscar sua felicidade na igualdade e na solidariedade.

É diferente com operários sérios. Entendemos por operários sérios todos aqueles que são real- mente esmagados pelo peso do trabalho; todos aqueles cuja posição é tão precária e tão miserável que nenhum deles, a não ser sob circunstâncias completamente extraordinárias, pode nem ao menos pensar em conquistar para si mesmo, e apenas para si mesmo, nas condições econômicas e no meio social atual, uma posição melhor; tomar-se, por exemplo, por sua vez, um patrão ou um conselheiro de Estado. Incluímos também, sem dúvida, nessa categoria, os raros e generosos operários que, ainda que tendo a possibilidade de ascender individualmente acima da classe operária, não querem aproveitar-se disso, preferindo sofrer ainda algum tempo, solidariamente com todos os seus camaradas de miséria, a exploração dos burgueses a se tornar exploradores, por sua vez. Esses não precisam ser convertidos; eles são socialistas puros.

Falamos da grande massa operária que, extenuada por seu trabalho cotidiano, é ignorante e miserável. Esta, quaisquer que sejam os preconceitos políticos e religiosos que se buscou e, inclusive, que se conseguiu em parte fazer prevalecer em sua consciência, é socialista sem sabê-lo; ela é, no âmago de seu instinto e pela própria força de sua posição, mais seriamente, mais realmente socialista do que o são todos os socialistas científicos e burgueses juntos. Ela o é por todas as condições de sua existência material, por todas as necessidades de seu ser, enquanto estes últimos só o são pelas necessidades de seu pensamento; e, na vida real, as necessidades do ser exercem sempre uma força bem mais forte do que aquelas do pensamento, o pensamento sendo aqui, como em toda a parte e sempre, a expressão do ser, o reflexo de seus desenvolvimentos sucessivos, mas nunca seu princípio.

O que falta aos operários não é a realidade, a necessidade real das aspirações socialistas, é apenas o pensamento socialista; o que cada operário reclama no fundo de seu coração: uma existência plenamente humana como bem-estar material e desenvolvimento intelectual, fundada na justiça, isto é, na igualdade e na liberdade de cada um e de todos no trabalho; esse ideal instintivo de cada um que vive só de seu próprio trabalho não pode evidentemente realizar-se no mundo político e social atual, que é fundado na injustiça e na exploração cínica do trabalho das massas operárias.

Assim, cada operário sério é necessariamente um revolucionário socialista, porquanto sua emancipação só pode efetuar-se pela destruição de tudo o que existe agora. Ou essa organização da injustiça, com toda a sua exibição de leis iníquas e de instituições privilegiadas deve perecer, ou então as massas operárias permanecerão condenadas a uma escravidão eterna.

Eis o pensamento socialista cujos germes encontrar-se-ão no instinto de cada trabalhador sério. O objetivo é, pois, dar-lhe a plena consciência do que ele quer, fazer nascer nele um pensamento que corresponda a seu instinto, a partir do momento que o pensamento das massas operárias tiver elevado-se à altura de seu instinto, sua vontade será determinada e sua força tornar-se-á irresistível. 
O que ainda impede o desenvolvimento mais rápido desse pensamento salutar no seio das massas operárias? Sua ignorância, sem dúvida, e em grande parte os preconceitos políticos e religiosos pelos quais as classes interessadas esforçam-se ainda hoje para obscurecer sua consciência e sua inteligência natural. Como dissipar essa ignorância, como destruir esses preconceitos malfazejos? - Pela instrução e pela propaganda?

São sem dúvida grandes e belos meios. Mas no estado atual das massas operárias eles são insuficientes. O operário isolado é demasiado esma gado por seu trabalho e por suas preocupações cotidianas para ter muito tempo para dedicar à sua instrução. E, por sinal, quem fará essa propaganda? Serão os poucos socialistas sinceros, emanados da burguesia, cheios de generosa vontade, sem dúvida, mas demasiado pouco numerosos para dar, inicialmente, à sua propaganda, toda a amplitude necessária, e, por outro lado, pertencendo por sua posição a um mundo diferente, não têm sobre o mundo operário toda a influência necessária e provocam nele desconfianças mais ou menos legítimas?

"A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores", diz o preâmbulo de nossos estatutos gerais. E ele tem mil vezes razão em dizê-lo a base principal de nossa grande Associação. Mas o mundo operário é geralmente ignorante; falta-lhe ainda por completo a teoria. Portanto, só lhe resta uma única via: aquela de sua emancipação pela prática. Qual pode e deve ser essa prática?

Só há uma. É aquela da luta solidária dos operários contra os patrões. São as Trades-unions, a organização e a federação das caixas de resistência.

III

Se a Internacional mostra-se de início indulgente em relação às ideias subversivas e reacionárias - seja em política, seja em religião - que operários podem ter ao ingressar em seu seio, não é em absoluto por indiferença a essas ideias. Não se pode taxar de indiferença visto que ela as detesta e as rejeita com todas as forças de seu ser - toda ideia reacionária sendo a inversão do próprio princípio da Internacional, como já o demonstramos em nossos artigos precedentes.  

Essa indulgência, repetimos uma vez mais, é-lhe inspirada por elevada sabedoria. Sabendo perfeitamente que todo operário sério é um socialista por todas as necessidades inerentes à sua posição miserável, e que ideias reacionárias, se existirem, só podem ser o efeito de sua ignorância, ela conta com a experiência coletiva, que ele não pode deixar de adquirir no seio da Internacional, e sobretudo com o desenvolvimento da luta coletiva dos trabalhadores contra os patrões para libertá-lo destes.

E, com efeito, a partir do momento que um operário, ao adquirir confiança na possibilidade de uma transformação radical da situação econômica próxima, associado a seus camaradas, começa a lutar seriamente pela diminuição de suas horas de trabalho e pelo aumento de seu salário, a partir do momento que começa a interessar-se vivamente por essa luta toda material, pode-se estar certo de que ele logo abandonará todas as suas preocupações celestes, e que, habituando-se a contar cada vez mais com a força coletiva dos trabalhadores, renunciará voluntariamente ao socorro do céu. O socialismo assume em seu espírito o lugar da religião.

O mesmo acontecerá com a sua política reacionária. Ela perderá seu principal apoio à medida que a consciência do operário vir-se liberta da opressão religiosa. Por outro lado, a luta econômica, ao desenvolve-se e amplia-se cada vez mais, far-lhe-á conhecer cada vez mais de uma maneira prática, e por uma experiência coletiva que é necessariamente sempre mais instrutiva e mais ampla que a experiência isolada, seus verdadeiros inimigos, que são as classes privilegiadas, inclusive o clero, a burguesia, a nobreza e o Estado; este último estando presente só para salvaguardar todos os privilégios dessas classes, e tomando necessariamente sempre o partido das classes privilegiadas contra o proletariado.

O operário, assim engajado na luta, acabará forçosamente por compreender o antagonismo irreconciliável que existe entre esses partidários da reação e seus interesses humanos mais caros, e, tendo chegado a esse ponto, não deixará de reconhecer-se e posicionar-se claramente como um socialista revolucionário.

O mesmo não se passa com os burgueses. Todos os seus interesses são contrários à transformação econômica da sociedade, e se suas ideias também são contrárias a isso, se essas ideias são reacionárias, ou como denominam polidamente hoje, moderadas; se sua inteligência e seu coração rejeitam esse grande ato de justiça e emancipação que denominamos revolução social, se eles têm horror pela igualdade social, real, isto é, pela igualdade política, social e econômica simultaneamente; se, no âmago de sua alma, eles querem conservar para eles próprios, para sua classe ou para seus filhos, um único privilégio, mesmo que fosse só aquele da inteligência, como fazem hoje muitos socialistas burgueses; se eles não detestam, não apenas com toda a lógica de seu espírito, mas ainda com toda a força de sua paixão, a ordem de coisas atual, então se pode estar certo de que eles permanecerão reacionários, inimigos da causa operária por toda a vida.

É preciso mantê-los longe da Internacional. É preciso mantê-los bem longe dela pois não poderiam nela ingressar senão para desmoralizá-la e para desviá-la de seu caminho. Há, por sinal, uma indicação infalível pela qual os operários podem reconhecer se um burguês, que pede para ser recebido em suas fileiras, dirige-se a eles francamente, sem sombra de hipocrisia e sem a menor reticência destruidora. Esse sinal são as relações que ele conservou no que concerne ao mundo burguês.

O antagonismo que existe entre o mundo operário e o mundo burguês assume um caráter cada vez mais pronunciado. Todo homem que pensa seriamente, e cujos sentimentos e imaginação não são absolutamente alterados pela influência amiúde inconsciente de sofismas interessados, deve compreender hoje que nenhuma reconciliação entre eles é possível. Os trabalhadores querem a igualdade, e os burgueses querem a manutenção da desigualdade. Evidentemente, uma destrói a outra. Assim, a grande maioria dos burgueses capitalistas e proprietários, aqueles que têm a coragem de reconhecer francamente o que querem, têm do mesmo modo a coragem de manifestar com a mesma franqueza o horror que lhes inspira o movimento atual da classe operária. Estes são inimigos tão resolutos quanto sinceros; nós os conhecemos e está bem assim.

Mas há uma outra categoria de burgueses que não têm nem a mesma franqueza, nem a mesma coragem. Inimigos da liquidação social, que nós chamamos com toda a força de nossas almas como um grande ato de justiça, como o ponto de partida necessário e a base indispensável de uma organização igualitária e racional da sociedade, eles querem, assim como todos os outros burgueses, conservar a desigualdade econômica, essa fonte eterna de todas as outras desigualdades; e, ao mesmo tempo, sustentam querer como nós a emancipação integral do trabalhador e do trabalho. Mantêm contra nós, com uma paixão digna dos burgueses mais reacionários, a própria causa da escravidão do proletariado, a separação do trabalho e da propriedade imobiliária ou capitalizada, hoje representados por duas classes diferentes; e, contudo, colocam-se como os apóstolos da libertação da classe operária do jugo da propriedade e do capital!

Enganam-se ou enganam? Alguns se enganam de boa-fé, muitos enganam; a maioria se engana e engana simultaneamente. Pertencem todos a essa categoria de burgueses radicais e socialistas burgueses que fundaram a Liga da Paz e da Liberdade!

Essa Liga é socialista? No começo, e durante o primeiro ano de sua existência, como já tivemos a oportunidade de dizê-lo, ela rejeitou o socialismo com horror. No ano passado, em seu Congresso de Berna, ela rejeitou triunfalmente o princípio da igualdade econômica. Hoje, sentindo-se morrer e desejando viver um pouco mais, e enfim compreendendo que nenhuma existência política é doravante possível sem a questão social, ela se diz socialista; tornou-se socialista-burguesa: isso quer dizer que ela quer resolver todas as questões sociais tendo por base a desigualdade econômica. Quer, deve conservar o interesse do capital e a renda da terra, e ela sustenta emancipar os trabalhadores com isso. Esforça-se para dar um corpo ao non-sense.

Por que ela o faz? O que a fez empreender uma obra tão incongruente quanto estéril? Não é difícil compreender. Uma grande parte da burguesia está fatigada do reinado do cesarismo e do militarismo que ela própria fundou em 1848, por temor do proletariado. Recordai apenas as jornadas de junho, anunciadoras das jornadas de dezembro; recordai essa Assembleia Nacional que, após as jornadas de junho, amaldiçoava e insultava, por unanimidade menos um voto, o ilustre e, pode-se muito bem dizê-lo, heroico socialista Proudhon, que sozinho teve a coragem de lançar o desafio do socialismo a essa tropa raivosa de burgueses conservadores, liberais e radicais. E não devemos esquecer que entre esses insultadores de Proudhon há uma quantidade de cidadãos ainda vivos, e hoje mais militantes do que nunca, e que, batizados pelas perseguições de dezembro, tornaram-se desde então os mártires da liberdade.

Assim, não há qualquer dúvida de que a burguesia inteira, inclusive a burguesia radical, foi de fato a criadora do despotismo cesariano e militar do qual hoje deplora os efeitos. Depois de se ter servido dele contra o proletariado, ela livrar-se dele agora. Nada de mais natural; esse regime a humilha e arruína.

Mas como livrar-se dele? Outrora ela era corajosa e poderosa, tinha a força das conquistas. Hoje é covarde e débil; foi acometida pela impotência dos velhos. Reconhece demasiado bem sua fraqueza, e sente que sozinha não pode nada. Precisa, portanto, de ajuda. Essa ajuda só pode ser o proletariado; desse modo, é preciso conquista-lo.

Mas como conquistá-lo? Por promessas de liberdade e igualdade política? São palavras que já não comovem os trabalhadores. Eles aprenderam às suas custas, compreenderam por urna dura experiência que essas palavras não significam para eles nada além da manutenção de sua escravidão econômica, com frequência, inclusive, mais dura que antes. Se, portanto, quiserdes tocar o coração desses miseráveis milhões de escravos do trabalho, falai-lhes de sua emancipação econômica. Não há mais operário que não saiba que esta é para ele a única base séria e real de todas as outras emancipações. Assim, é preciso fala-lhes de reformas econômicas da sociedade.

Pois bem, disseram-se os membros da Liga da Paz e da Liberdade, falemos disso, digamo-nos também socialistas. Prometemos-lhes reformas econômicas e sociais, sob a condição, todavia, de que eles queiram respeitar as bases da civilização e da onipotência burguesa: A propriedade individual e hereditária, o interesse do capital e a renda da terra. Persuadamo-los de que, só sob essas condições, que por sinal asseguramos a dominação e aos trabalhadores a escravidão, o trabalhador pode ser emancipado.

Persuadamo-los ainda de que, para realizar todas essas reformas sociais, é preciso de início fazer uma boa revolução política, exclusivamente política, tão vermelha quanto quiserem do ponto de vista político, com um grande abate de cabeças se isso se torna necessário, mas com o maior respeito pela santa propriedade.; uma revolução inteiramente jacobina, em resumo, que nos tornará senhores da situação; e, uma vez senhores, daremos aos operários... O que pudermos e o que quisermos.
Eis aí um sinal infalível pelo qual os operários podem reconhecer um falso socialista, um socialista burguês: se, ao falar-lhes de revolução, ou, se preferirem, de transformação social, ele diz-lhes que a transformação política deve preceder a transformação econômica; se ele nega que elas devem fazer-se simultaneamente ou mesmo que a revolução política não deve ser nada além da aplicação imediata e direta da liquidação social plena ou inteira; que eles lhe deem as costas, pois, ou ele é apenas um imbecil, ou então um explorador hipócrita.

IV

A Associação Internacional dos Trabalhadores, para permanecer fiel a seu princípio, e para não desvia-se da única via que pode conduzi-la a bom porto, deve armar-se sobretudo contra as influências de dois tipos de socialistas burgueses: Os partidários da política burguesa, até mesmo os revolucionários burgueses, e aqueles da cooperação burguesa, ou pretensamente homens práticos.
Consideremos, inicialmente, os primeiros. A emancipação econômica, já dissemos no nosso número precedente, é a base de todas as outras emancipações. Resumimos por essas palavras toda a política da Internacional.

Lemos, com efeito, nos considerandos de nossos estatutos gerais, a seguinte declaração:

Que a sujeição do trabalho ao capital é a fonte de toda servidão política, moral e material, e que por essa razão, a emancipação dos trabalhadores é o grande objetivo ao qual deve estar subordinado todo movimento político.

Está claro que todo movimento político que não tem absolutamente por objeto imediato e direto a emancipação econômica, definitiva e completa dos trabalhadores, e que não inscreveu em sua bandeira, de maneira bem determinada e bem clara, o princípio da igualdade econômica, o que quer dizer a restituição integral do capital ao trabalho, ou então a liquidação social - que todo movimento político semelhante é burguês, e, como tal, deve ser excluído da Internacional.

Deve, por consequência, ser excluída sem piedade a política dos burgueses democratas ou socialistas burgueses, que, declarando "que a liberdade política é a condição prévia da emancipação econômica", só podem entender por essas palavras o seguinte: As reformas ou a revolução política devem preceder as reformas ou a revolução econômica; os operários devem, consequentemente, aliar-se aos burgueses mais ou menos radicais para fazer de início com eles as primeiras, sem excluir a eventualidade de fazer em seguida contra eles as últimas.

Protestamos francamente contra essa funesta teoria que só poderia resultar, para os trabalhadores, uma vez mais, na sua utilização como instrumento contra eles próprios e novamente em sua entrega à exploração dos burgueses.

Conquistar a liberdade política de início só pode significar conquistar exclusivamente ela, abandonando, ao menos durante os primeiros dias, as relações econômicas e sociais no estado em que se encontram, isto é, os proprietários e os capitalistas com sua insolente riqueza, e os trabalhadores com sua miséria.

Mas essa liberdade, uma vez conquistada, dizem, servirá aos trabalhadores de instrumento para conquistar mais tarde a igualdade ou a justiça econômica.

A liberdade, com efeito, é um instrumento magnífico e poderoso. A questão é saber se os trabalhadores poderão realmente servir-se dela, se ela estará realmente em sua posse, ou se, como sempre foi até aqui, sua liberdade política será apenas uma aparência enganadora, uma ficção?

Um operário, em sua situação econômica atual, ao qual se viesse falar de liberdade política, poderia responder pelo refrão de uma canção bem conhecida: 

Não falai de liberdade.
A pobreza é a escravidão!

E, com efeito, é preciso estar apaixonado por ilusões para crer que um operário, nas condições econômicas e sociais nas quais se encontra atualmente, possa aproveitar plenamente, fazer uso sério e real de sua liberdade política. Faltam-lhe para isso duas pequenas coisas: o lazer e os meios materiais.
Por sinal, não vimos na França, no dia seguinte à revolução de 1848, a revolução mais radical que se possa desejar do ponto de vista político?

Os operários franceses não eram, decerto, nem indiferentes, nem ininteligentes e, malgrado o sufrágio universal mais amplo, tiveram de deixar os burgueses agir. Por quê? Porque lhes faltaram os meios materiais que são necessários para que a liberdade política torne-se uma realidade, porque eles permaneceram os escravos de um trabalho forçado pela fome, enquanto os burgueses radicais, liberais e até mesmo os conservadores, uns republicanos da véspera, os outros convertidos do dia seguinte, iam e vinham, agitavam, falavam, faziam e conspiravam livremente, uns graças às suas rendas ou à sua posição burguesa lucrativa, os outros graças ao orçamento do Estado que se tinha naturalmente conservado e que se tinha, inclusive, tomado mais forte do que nunca.

Sabemos o que resultou disso: inicialmente, as jornadas de junho, depois, como consequência necessária, as jornadas de dezembro.

Todavia, dir-se-á, os trabalhadores, tornados mais sábios pela própria experiência que fizeram, não mais enviarão burgueses às assembleias constituintes ou legislativas, enviarão simples operários. Por mais pobres que sejam, eles poderão sustentar seus deputados. Sabei o que disso resultará? Os operários deputados, transportados às condições de existência burguesas, e a uma atmosfera de ideias políticas completamente burguesas, cessando de ser trabalhadores de fato para torna-se homens de Estado, tomar-se-ão burgueses e, talvez, ainda mais burgueses do que eles próprios. Pois os homens não fazem as posições, são as posições, ao contrário, que fazem os homens. E sabemos por experiência que os operários-burgueses não são amiúde nem menos egoístas do que os burgueses exploradores, nem menos funestos à Associação do que os burgueses socialistas, nem menos vaidosos e ridículos do que os burgueses enobrecidos.

O que quer que se faça ou se diga, enquanto o trabalhador permanecer mergulhado em seu estado atual, não haverá absolutamente para ele liberdade possível, e aqueles que o incitam a conquistar as liberdades políticas sem tocar antes nas candentes questões do socialismo, sem pronunciar essa expressão que faz os burgueses empalidecerem, liquidação social, dizem-lhe simplesmente: conquista antes essa liberdade para nós, para que mais tarde nós possamos dela nos servir contra ti.

Mas esses burgueses são bem-intencionados e sinceros, dir-se-á. Mas não há boas intenções e sinceridade que se sustentem contra as influências da posição, e visto que dissemos que os próprios operários que se colocassem nessa posição tornar-se-iam forçosamente burgueses, por uma razão ainda mais forte, os burgueses que permanecerem nessa posição permanecerão burgueses.

Se um burguês, inspirado por uma grande paixão de justiça, igualdade e humanidade, quer seria mente trabalhar pela emancipação do proletariado, que ele comece inicialmente por romper todos os laços políticos e sociais, todas as relações de interesse bem como de espírito, de vaidade e de coração com a burguesia. Que ele compreenda antes que nenhuma reconciliação é possível entre o proletariado e essa classe; que, quem quer que viva da exploração alheia é inimigo natural do proletariado.

Depois de ter voltado definitivamente as costas ao mundo burguês, que ele venha então se colocar sob a bandeira dos trabalhadores, na qual estão escritas essas palavras: “Justiça, Igualdade e Liberdade para todos. Abolição das classes pela igualização econômica de todos. Liquidação social." Ele será bem-vindo. Quanto aos socialistas burgueses, bem como aos burgueses operários que vierem nos falar de conciliação entre a política burguesa e o socialismo dos trabalhadores, só temos um conselho a dar a estes últimos: é preciso virar-lhes as costas.

Porquanto os socialistas burgueses esforçam-se hoje para organizar, com a isca do socialismo, uma formidável agitação operária a fim de conquistar a liberdade política, uma liberdade que, como acabamos de vê-lo, só beneficiaria a burguesia; visto que as massas operárias, tendo chegado ao entendimento de sua posição, esclarecidas e dirigidas pelo princípio da Internacional, organizam» se, com efeito, e começam a formar uma autêntica força, não nacional, mas internacional; não para cuidar dos interesses dos burgueses, mas de seus próprios interesses; e porquanto, mesmo para realizar esse ideal dos burgueses de uma completa liberdade política com instituições republicanas, é preciso uma revolução, e que nenhuma revolução pode triunfar senão exclusivamente pela força do povo; é preciso que essa força, cessando de esfalfar-se pelos Senhores burgueses, só sirva doravante a fazer triunfar a causa do povo, a causa de todos aqueles que trabalham contra todos os que exploram o trabalho.

A Associação Internacional dos Trabalhadores, fiel a seu princípio, jamais apoiará uma agitação política que não tenha por objetivo imediato e direto a completa emancipação econômica do trabalhador, isto é, a abolição da burguesia como classe economicamente separada da massa da população, nem qualquer revolução que desde o primeiro dia, desde a primeira hora, não inscreva em sua bandeira a liquidação social.

Mas não se improvisam as revoluções. Elas não se fazem arbitrariamente nem pelos indivíduos, nem mesmo pelas mais poderosas associações. Independentemente de toda vontade e de toda conspiração, elas são sempre conduzidas pela forçadas coisas. Pode-se prevê-las, pressentir sua aproximação, às vezes, mas nunca acelerar sua explosão. Convictos dessa verdade, fazemo-nos esta pergunta: Qual é a política que a Internacional deve seguir durante esse período mais ou menos longo que nos separa dessa terrível revolução social que todos pressentem hoje?

Fazendo abstração, como lhe prescrevem seus estatutos, de toda política nacional e local, ela dará à agitação operária em todos os países um caráter essencialmente econômico, colocando como objetivo a diminuição da jornada de trabalho e o aumento dos salários; como meios, a associação das massas operárias e a formação das caixas de resistência.

Ela fará a propaganda de seus princípios, pois esses princípios sendo a expressão mais pura dos interesses coletivos dos trabalhadores do mundo inteiro, são a alma e constituem toda a força vital da Associação. Fará essa propaganda amplamente, sem respeito pelas suscetibilidades burguesas, a fim de que cada trabalhador, saindo do torpor intelectual e moral no qual se esforçam para mantê-lo, compreenda sua situação, saiba o que deve querer fazer e em que condições pode conquistar seus direitos de homem.

Fará uma propaganda tanto mais enérgica e sincera porque na própria Internacional amiúde encontramos influências que, desejando desprezar esses princípios, gostariam de fazê-los passar por uma teoria inútil, e esforçam-se para reconduzir os trabalhadores ao catecismo político, econômico e religioso dos burgueses.

Ela ampliar-se-á, enfim, e organizar-se-á fortemente atravessando as fronteiras de todos os países, a fim de que, quando a revolução, conduzida pela força das coisas, tiver eclodido, haja uma força real, sabendo o que deve fazer e, por isso mesmo, capaz de apoderar-se dela e dar-lhe uma direção verdadeiramente salutar para o povo; uma organização internacional séria das associações operárias de todos os países, capaz de substitui esse mundo político dos Estados e da burguesia que parte.

Terminamos essa exposição fiel da política da Internacional reproduzindo o último parágrafo dos considerandos de nossos estatutos gerais:

“O movimento que se realiza entre os operários dos países mais industriosos da Europa, fazendo nascer novas esperanças, dá uma solene advertência para não recair em absoluto nos antigos erros”.
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* In.: BAKUNIN, Mikhail. Os Enganadores – A Política da Internacional – Aonde ir e o Que fazer?. São Paulo: Imaginário/Faísca, 2008. (Publicado originalmente no jornal L’Égalité, em Genebra, nos dias 7, 14, 21 e 28 de Agosto de 1869. Traduzido por Plínio Augusto Coêlho).